PERFIL STTP - Damiris Dantas #003
PERFIL STTP - Damiris Dantas #003
Nov 13, 2020

PERFIL STTP - Damiris Dantas #003

Por Victor Santo FOTO: Julio Nery

 

Jogadora da Seleção Brasileira de Basquete e única representante do Brasil na WNBA, a pivô e número 12 do Minnesota Lynx, Damiris Dantas do Amaral, também conhecida como Damiris Dantas, ou só DANTAS, dividiu conosco do STREETOPIA sua linda história de dedicação, amor e muito respeito ao basquete.

 

Natural de Ferraz de Vasconcelos, município do estado de São Paulo, a jovem atleta teve seu primeiro contato com o esporte quando foi com suas duas irmãs morar com os tios em função do falecimento de sua mãe aos 9 anos. Seu tio, um profundo admirador do esporte, passou a incentiva-la a procurar alguma atividade para se ocupar e se distrair como forma de amenizar a dor da perda.

 

 

 

Era época de olimpíadas escolares na Escola Estadual IIJIMA, e Damiris começava a jogar vôlei a partir de um convite de uma das professoras de educação física. Apesar de gostar, não era algo que lhe despertava total interesse. Decidiu tentar o handball, e até que ficou mais empolgada com a dinâmica do esporte, mas ainda não era aquilo que procurava.

 

Damiris se destacava entre as demais meninas da turma por sua altura, e por isso, sob mais um motivo de incentivo, recebia da professora Telma o convite para participar dos treinos de basquete da escola. Apesar de pouco conhecer os fundamentos da nova modalidade, já era frequentadora assídua das atividades, e para sua surpresa, a já reconhecida pivô, participaria de seu primeiro jogo. Claro que com um resultado não muito satisfatório em função de sua pouca habilidade, mas ela recorda que já se sentia a vontade em quadra:

 

“Eu lembro que tava MUITO perdida, mas eu tava em quadra. Tinham 6 meninas, eu era muito grande e a professora falou, vai! Não sabia fazer bandeja, andava com a bola, foi uma coisa terrível...”

 

Parecia que o universo conspirava mesmo a favor de Damiris. Ao final da partida, ela recebeu como indicação de uma amiga, o telefone do Instituto Janeth Arcain, organização conhecida pelo fomento do esporte como ferramenta educacional. Chegando em casa e totalmente desinteressada, pediu para que sua tia ligasse para ver o que exatamente era aquele tal instituto, e em meados de Dezembro de 2005, Damiris teve a oportunidade de participar de um concorrido teste com mais de 80 meninas e poucas semanas depois, através da própria Janeth, soube que tinha sido a única escolhida.

 

O novo horizonte que se abria diante da mais nova mirim do C.F.E. Janeth, fazia com que ela tivesse ainda mais certeza do futuro promissor que tinha pela frente, e por isso, abraçava cada oportunidade como se fosse única. Eleita a melhor da categoria em 2006, representou o time do Instituto Janeth Arcain até 2009.

 

Em 2010, como Juvenil do Divino/COC de Jundiaí, contribuiu para a conquista do campeonato paulista e aos 15 anos, surge a oportunidade de estudar e jogar no Colégio Maristas-Cristo Rey em A Coruña, Espanha e no Real Celta Vigo. Apesar de algumas vezes ter pensado em desistir pela distância e saudades de casa, Damiris reconhece que todo esforço valeu a pena e que a participação, apoio e orientação de Janeth, tiveram um papel fundamental para seu amadurecimento e formação de atleta:

 

“Ela me mandou para Espanha com 15 anos, cara. Claro que ela tava me acompanhando, tudo que eu precisava eu falava com ela e as pessoas que estavam lá eram de confiança. Acho que a Tia Jane já estava me preparando para as coisas que iriam acontecer futuramente...”

 

Damiris, sempre grata pela presença e apoio familiar, encontrou no basquete uma maneira de transformar não só a sua vida mas também a de suas irmãs e de todos que participaram diretamente dessa linda jornada, sendo principalmente motivada por sua mãe, que é sua maior inspiração:

 

 

 

De volta ao Brasil, representou equipes como Ourinhos, Maranhão e Americana entre 2012 e 2014, e aproveita para destacar que a realidade e qualidade do basquete feminino nessa época era muito boa justamente por ter mais investimento, jogadoras de outros países, mais equipes e consequentemente mais competitivo.

 

Ainda em 2012, Damiris é surpreendida com uma das melhores notícias de sua vida: ela foi a 12ª escolha na 2ª rodada no Draft da WNBA. Tudo isso aconteceu através do plano de carreira oferecido pelo ‘Instituto Janeth Arcain’, que sem saber teve seu nome inscrito. Em meio a procura de respostas para entender como tudo isso acontecido, a mais nova representante do Brasil na liga nacional americana de basquete feminino, transbordava felicidade. Mesmo tendo sido ‘draftada’, Damiris em conjunto com Janeth, a técnica Cheryl Reeve e parte da comissão técnica do Minnesota Lynx, entenderam prudente esperar um pouco e que permanecesse no time de Americana onde foi tricampeã brasileira – Ela final finalmente se apresentou à WNBA em 2014.

 

Já nos Estados Unidos, sua rotina de treinos era intensa. Durante dois meses, passou por um tempo de adaptação, onde treinava diariamente 2 duas horas de manhã e a noite, além de conciliar com os treinos vespertinos. A ‘guardiã’ Janeth, que é também uma de suas maiores referências no esporte, estava presentes nesses momentos, seja orientando tecnicamente ou dando uma força com o inglês, que era uma de suas maiores dificuldades.

 

Damiris tinha um certo receio quanto ao que ouvia sobre americanos serem um pouco menos calorosos e temia que isso atrapalhasse sua adaptação, mas pode ver na prática um cenário bem diferente. Muito bem recebida por todos do time, lembra com carinho de momentos que teve por exemplo com Maya Moore, uma das maiores jogadoras na história da liga:

 

“A Maya Moore é muito especial. Ela as vezes batia na minha porta e falava: Olha, tem um ‘lanchinho’ pra você que a minha mãe fez. Eu abri a porta e falava a Maya está aqui me trazendo um lanche, um hot-dog, pelo amor de Deus. Não só ela, mas todas as meninas cuidavam muito de mim...”

 

Ela relembra também o momento de sua primeira partida como titular na temporada 2014-2015, quando substituiu a pivô Rebekkah Brunson por ter se machucado. Embora não tenha feito muitos pontos, Damiris recebeu muitos elogios de sua técnica pelos seus bons passes, assistências, garantindo sua posição por 20 jogos.

 

Em meio a tantas lembranças inesquecíveis em sua história, impossível não falar sobre o atual momento que vivemos e os impactos causados pela pandemia na vida de todas as pessoas, e claro que na WNBA, que assim como a NBA, criou sua bolha para concluir a temporada 2019-20 com segurança. Essa atmosfera foi fundamental para aumentar e melhorar o entrosamento entre as equipes e até do ponto de vista organizacional, servirá de norte para definir melhores estratégias e um novo ‘modo operandi’ para todas as franquias.

 

 

 

Damiris, reconhece que atualmente, o Basquete Feminino caminha para um momento ainda melhor, mas para um resultado mais satisfatório, precisa de mais visibilidade, mais investimento (principalmente na categoria de base) e que o esporte esteja em primeiro lugar. No caso do Brasil e com a atual gestão da CBB, afirma que muita coisa mudou, principalmente depois da conquista do pan-americano, e que apesar de seus planos na WNBA, tem como objetivo elevar a categoria no país no lugar mais alto que puder.

 

Recém premiada como a “Esportista do Ano” através do “Prêmio Geração Glamour 2020” organizado pela Revista Glamour, Damiris aproveita para falar sobre usar sua voz como plataforma de orientação, conscientização e de representatividade, em um momento crucial, onde lamentavelmente, vemos cada vez mais pessoas a vontade com o quão racistas podem ser. Ela abraça suas principais referências ancestrais, dizendo:

 

“Eu dedico esse prêmio a todas as mulheres pretas da minha vida, porque se eu sou o que sou hoje, eu devo a elas...”

 

De férias no Brasil e com contrato renovado por mais dois anos com o Minnesota Lynx, Damiris é a maior prova, que o basquete é uma poderosa ferramenta de transformação, que edifica, que educa e que salva. Basquete para ela é vital, e por isso significa VIDA.